domingo, 16 de março de 2014

Entrevista a João Tordo

Quando começas a escrever não há um plano até ao final?

Não. Há um bocadinho de preconceito em relação aos meus livros por ser professor de Escrita Criativa. Acham que sigo um padrão ou modelo. Posso dizer que quando escrevo um romance ando a pensar nele há seis meses, um ano, mas penso em termos de profundidade das personagens, no que diz respeito à história/enredo não sei de nada. Prefiro que seja assim, que não seja mecânico. Se soubesse exactamente como era a estrutura aborrecia-me. Há escritores, os Dan Brown da vida, que têm isso tudo estruturado, mas isso a mim não me interessa nada. Escrevo porque tenho perguntas às quais quero dar resposta e inquietações que tenho de pôr no papel se não ficam comigo e tornam-me uma pessoa mais inquieta do que já sou.

Nos teus livros há sempre uma mistura entre a realidade e a ficção. Gostas de baralhar o leitor?

Gosto de estar na fronteira entre realidade e ficção porque lança dúvidas na pessoa que está a ler e em mim. Não sei se é o João, eu, que está a escrever, se é o meu alter ego ou a personagem do livro. Essa fronteira que não é nítida e é o que enforma a minha ficção. Porque todas as histórias estão contadas.

Não há mais nada?

Não, porque gira sempre em torno dos mesmos temas. Shakespeare contou-as todas. Não deixou nada para a gente.

E o que é que se faz?

O que se faz agora é arranjar formas novas de contares as mesmas coisas. No fundo esta história é sobre a identidade ou a falta dela, e a necessidade de um outro para nos conhecermos a nós próprios. Mas se esse outro não puder existir? Aí está a trama do livro. É uma história que já estava no “Hamlet”. Não estou a contar nada de novo, excepto com formas que não foram feitas, com um autor que se confunde com o narrador que se confunde com a personagem. Portanto aí é que está o poder dos meus livros. Por exemplo, neste romance achei que a segunda parte seria contada pelo Stockman. Depois percebei que a história precisava de ser contada de fora e surgiu o narrador. Parece um bocadinho místico ou hermético, mas os livros ganham vida própria.

Como assim?

Tu não comandas completamente a tua cabeça. O sono é importante para mim enquanto estou a escrever, é o momento em que organizo as ideias. Escrevo das 10h às 15h e durante o resto do dia não penso mais naquilo para não ter dúvidas sobre o que fiz. Se começo a ter dúvidas, bom... é o fim da picada, porque sou superinseguro e vai tudo para o lixo. Quando me vou deitar há ali um momento entre o sono e a vigília em que tenho óptimas ideias e sei que na manhã seguinte vou usá-las. Na segunda parte deste livro percebi que a voz narrativa dos outros livros tinha regressado e não sei explicar porquê. No fundo sou eu, e estou a contar a história do ponto de vista de alguém que viveu aquela situação. Eu passei a vida inteira com um gémeo desaparecido, portanto quem melhor que eu para contar? É como ir ao psicólogo e falar dos problemas, não há soluções imediatas, mas o facto de pensares sobre eles ou de os pores em página faz que deixem de ter a importância que tinham. Claro que não escrevo só por terapia, se não não publicava. Não acredito que os escritores escrevam só para si próprios.

Mas há escritores que escrevem de forma mais complicada, parece que querem que poucas pessoas os entendam.

Isso tem todo o valor, mas se não tiveres uma preocupação mínima de seres claro as pessoas não te vão entender e depois não te queixes. Acho que os escritores estão divididos em grupos, há aqueles que escrevem porque lhes dá gozo, gostam de vender, temos imensos casos, aqueles calhamaços que são rally papers à procura da Mona Lisa, como o Dan Brown. A mim não me interessa nada.

Leste?

Não tenho interesse. São exercícios e têm piada enquanto isso. Mas uma coisa é literatura, outra são exercícios literários. Na literatura tem de estar alguma coisa em jogo, tem de ter a ver com a tua intimidade. Inventar personagens e um enredo não é suficiente. Hoje há muitos enganos. Toda a gente escreve um livro, mas uma coisa é escrever um livro outra é ser escritor. Acho confuso que os escaparates exibam no mesmo espaço o livro de uma bloguer, de uma apresentadora de TV e de Saramago. Não são a mesma coisa. É como venderes pastéis de nata e caviar na mesma secção. Tenho a consciência clara de que só podia ser escritor, não tenho jeito para mais nada. Foi a coisa que sempre quis fazer.

Não foi uma coisa de momento, de agora apetece-me escrever?

Não. Aos cinco e seis anos ficava à secretária a fazer histórias, banda desenhada, contos, não é uma coisa comum. É como ter um chamamento para ser advogado. Acho que se desrespeita a profissão de escritor quando se publica tudo e se chama escritor a quem o não é. É como eu querer ser advogado e dizer: “Olha, dêem o acesso à Ordem e vou começar a defender pessoas em tribunal.” Não faz sentido.

Mas esse fenómeno não pode levar a que mais pessoas leiam?

Tenho dúvidas. Já acreditei que sim, mas quando comecei a ver que os calhamaços à la Dan Brown só geram calhamaços à la Dan Brown começo a pensar que as pessoas que o lêem só vão lê-lo ou a coisas igualmente fáceis. Gostava que toda a gente lesse de tudo, Dan Brown, Saramago, Valter Hugo Mãe, a mim. Mas acho que há uma certa leitura que causa preguiça. Se passares a vida a ler o jornal desportivo dificilmente vais ler a “The Economist”. Não estou a dizer que um é melhor ou pior, são diferentes.

Há pouco dizias que sempre quiseste ser escritor, nunca houve outra vontade?

Fui jornalista por uns anos.

E gostaste?

Não... Quer dizer, gostei porque me deu traquejo de escrita e me ensinou alguma economia de palavras. Na verdade, formei-me em Filosofia, não queria literatura porque não queria dissecar os livros. Gostava de ler e fascinava-me tentar compreender como funciona o pensamento ocidental. Depois comecei a trabalhar como jornalista aos 21 anos e fui para Londres fazer um mestrado em Jornalismo. Foi lá que percebi que se fosse jornalista seria apenas mediano.

Porquê?

Era desorganizado, não tinha agenda, chegava atrasado a tudo... O que me apetecia era pegar nos factos e começar a extrapolar. As minhas reportagens, cheguei a escrever para alguns jornais da nossa praça, estavam quase a tocar a ficção. Cheguei a escrever uma que me pediu o editor da “Vida (3)” do “Independente”, o Francisco Camacho, e ele disse que tinha achado imensa graça só que a reportagem era quase tipo ficção. Percebi nesse momento que não estava a escrever como jornalista, era mais como escritor. Entre os cinco e os 17 anos escrevi de tudo, má poesia, cartas, contos, peças de teatro, de repente parei por dez anos e quando voltou a vontade veio com uma força imensa. Sou uma pessoa muito inquieta e insatisfeita. Aborreço-me com muita facilidade. O quotidiano aborrece-me.

Porquê?

Não sei. Presumo que o quotidiano das pessoas que não se aborrecem seja espectacular, mas o meu é aborrecido. Preciso do mundo ficcional, dessas personagens, que são meus amigos. Às vezes prefiro estar com eles a estar no quotidiano. Embora goste de pessoas, não sou nenhum eremita. Sou muito sociável.

Quando tomaste a decisão de ser escritor, achaste que ia ser difícil?

Não pensei nisso. O único romance que escrevi sem qualquer ideia se ia ter leitores foi o primeiro. Enviei para cerca de nove ou dez editoras, recebi quatro ou cinco negas, houve algumas que nem responderam. Até que a Maria do Rosário Pedreira, que sempre foi a minha editora, achou que era especial. Fiquei surpreendido porque achava que ia para uma editorazinha ou para o inferno da auto-edição. Mas a Rosário, como tem um olho mágico, que grande parte dos editores não têm, pegou em mim e fez de mim um escritor. Eu era um aprendiz. Com ela sou o dobro do que poderia ser. Ela utiliza o processo socrático, tens de arrasar as tuas crenças todas para as reconstruíres. Ao princípio pode ser uma editora implacável, mas foi a melhor coisa que me aconteceu na vida.

Agora sentes que fazes parte da literatura portuguesa?

Sim. Sou nomeado para prémios, alguns ganho, outros perco, e acho que os meus livros, com defeitos e qualidades, foram na altura, e hoje ainda são, uma coisa nova. Esta nova geração tem essa qualidade. Se pegares no livro do Valter Hugo Mãe, do David Machado, do Gonçalo M. Tavares, aquilo é novo. Agora temos mais mediatização que os escritores mais antigos tiveram, mas também não gosto da ideia de escritor pop. Não somos cantores de rock. Vou na rua anónimo e ninguém me reconhece, graças a Deus. Quer dizer, às vezes dizem que leram o meu livro e tal, mas não sou o Justin Bieber.

Viver dos livros é possível?

Ainda não consigo, metade do meu salário é dos cursos que dou e dos guiões que escrevo. Nesta economia é muito difícil, não vendo mal, mas também não sou um bestseller de vendas.

Como a E. L. James, que está no top.

Sim, eu nem sequer quero saber o que é. Não me interessa nada.

Mas para um escritor é frustrante ver esse tipo de livros no top?

Não é nada frustrante. Sei como é o país onde vivo, não sou estúpido. Sei a quantidade de pessoas que terei como leitores e espero chegar a um dia que venda o suficiente para viver disso. Mas não estou muito interessado no dinheiro. Estou-me a cagar para os luxos. Aliás, estou-me a cagar para o dinheiro. Sinceramente, nunca me fascinou o dinheiro, não estou interessado em ser rico. Estou interessado em ganhar o suficiente para poder escrever.

Além de escrever, tocas contrabaixo. Como é que isso aconteceu?

Aos 15 anos comecei a estudar, bem, estudar não, porque nunca fui às aulas, mas estive no Hot Club e queria tocar contrabaixo. Como era muito caro só tinha o baixo eléctrico em casa para praticar. Há dois anos conheci um tipo irlandês que mora em Lisboa, o Barry, que tinha uma banda, os Loafing Heroes, começámos a tocar juntos e realizei o sonho de comprar um contrabaixo. Mas é um bocadinho como andar de bicicleta e fazer sexo, nunca esqueces. Então lá fui e dá-me imenso gozo. Somos cinco, tocamos em bares, é uma coisa que faço em harmonia, estou lá atrás e não me exponho. Nunca imaginei fazer carreira disso, é uma coisa que faço para me distrair da vida de escritor.

A música sempre esteve presente por causa do teu pai [Fernando Tordo]?

Não, não foi uma coisa muito presente. Deixei o Hot Club aos 17 e não voltei a tocar até aos 35 anos. Foi uma coisa que readquiri recentemente.


Jornal i. 20/02/2014 (Adaptado)

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